A pergunta que não
quer calar:
– Mas o que é a crase, afinal?
Esse bicho de sete cabeças que assusta, tira noites de sono
e faz com que muitos alunos, inclusive da área de Letras, sejam reprovados em
testes, provas, avaliações, vestibulares e afins.
Porém, fiquem tranquilos, cá estou para salvá-los dessa
maldição!
A palavra crase nomeia a contração ou fusão da preposição a
exigida pela regência do verbo ou do nome (substantivo, adjetivo ou advérbio)
com:
- O artigo feminino a(s):
Ele não resistiu à pressão e demitiu-se.
- Os pronomes demonstrativos aquele(s), aquela(s), aquilo:
Por favor, encaminhe-se àquele balcão.
- O pronome demonstrativo a(s):
Nossos atletas estão em condições
semelhantes às dos americanos.
Ou seja, crase, amigos, nada mais é do que a contração do
artigo “a” e da preposição “a”. Sendo assim: a + a = à. E, em alguns casos, com as
iniciais dos pronomes demonstrativos aquela(s), aquele(s), aquilo ou com o
pronome relativo a qual (as quais).
Até aqui tudo bem?
Então...
Hoje veremos:
Em que situações NÃO
ocorre crase?
1. Antes de verbo
Nunca, jamais, na história da Língua Portuguesa, foi
permitido o uso da crase antes do verbo. Portanto, amigos, nada de:
“A partir de segunda-feira, não será permitida a entrada sem
uniforme.”
“Começou a cantar após receber a notícia.”
“Não tenho nada a declarar.”
Não, não e NÃO! Observe os exemplos acima, não se usa crase antes de verbo. É expressamente proibido colocar crase antes do verbo, estamos entendidos?
Podemos ir para a próxima?
2. Antes de
substantivos masculinos
Oras, mas se a crase é a junção da preposição “a” + o artigo
“a”, não existe explicação para sua ocorrência antes de substantivos
masculinos, certo?
Portanto, amigos, não há ocorrência de crase nas situações
abaixo.
“Sujeito a guincho.”
“Viemos a pé.”
“Chegou vestida a caráter.”
“Gostava muito de andar a cavalo.”
Essa foi fácil!
3. Entre palavras
repetidas
“Frente a frente”, “passo a passo”, “gota a gota”, “cara a
cara”, “ponta a ponta” (poderia ficar citando infinitamente).
Eu sei, eu sei que você pensou que sim! Mas não, NÃO ocorre
crase entre substantivos que se repetem.
Infelizmente, nenhum truque para lembrar, apenas tentem
habituar-se à regra, ok?
4. Antes de pronomes
a. pessoais
“Entreguei as flores a ela.”
O “a”, acima, equivale a “para”, temos, portanto, apenas a
preposição sem o artigo. E não, NÃO ocorre crase!
b. de tratamento
“Dirijo-me a Vossa Excelência (...)”
“Comunique a Vossa Alteza do ocorrido.”
Pasmem! Não, NÃO ocorre crase diante de pronomes de
tratamento!
c. demonstrativos
“Nunca mais voltarei a esta escola.”
“Você vai sair a esta hora?”
Diante de “este”, “esta”, “isto”, “isso”, “esse”, “essa”.
Lá vem a “exceção”!
Pode ocorrer crase pela junção da preposição “a” + a
primeira letra dos pronomes demonstrativos “aquele”, “aquela” e “aquilo”.
Por exemplo:
“Diga àqueles (a + aqueles/ para aqueles) meninos que seus
pais os procuram.”
Muito difícil? Bom, vamos para a próxima!
d. indefinidos
Muito, mas muito erroneamente usada, a crase antes de
“todos” NÃO existe, vejam só:
“Comunico minha decisão a todos.”
“A todos, uma ótima semana.”
“Todos” é um pronome indefinido e, portanto, não ocorre
crase diante desse vocábulo!
Outros exemplos:
“Faria isso a qualquer um.”
“Não diga isso a ninguém!”
Segue tabela básica com alguns pronomes indefinidos:
e. relativos (que, quem,
cujo(a), quanto, onde)
“Era ela a professora a quem nos reportávamos.”
“A empresa a cujos diretores nos referíamos faliu.”
Atenção: Ocorre crase com os pronomes relativos “a qual”, “as quais”.
“Essas eram as meninas às quais eu me referia.” (meninos aos quais eu me referia)
Atenção: Ocorre crase com os pronomes relativos “a qual”, “as quais”.
“Essas eram as meninas às quais eu me referia.” (meninos aos quais eu me referia)
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Observação geral: Alguns pronomes admitem a anteposição do artigo
feminino. Com esses pronomes, evidentemente, poderá ocorrer crase. Verifique:
“Fiz referência à mesma aluna”. (ao mesmo aluno)
“Isto pertence à senhora”. (ao senhor)
5. Antes de números
cardinais
Aposto que por essa você não esperava!
Não, amigos, não ocorre crase diante de números cardinais,
vejamos:
“Chegarei daqui a dez minutos.”
“Era um caso a três.”
6. Quando o a estiver no singular diante de uma palavra no plural.
Erro muito comum, preste atenção!
“Refiro-me a alunas estudiosas.”
Não, no caso acima NÃO ocorre crase!
7. Antes do artigo
indefinido “uma”.
“Ela foi a uma reunião de negócios.”
Não coloque crase antes do artigo indefinido
“uma”. Simplesmente porque “uma” já é um artigo, sem necessidade de haver a
contração preposição “a” + artigo “a”.
Tudo bem até aqui?
8. Antes da palavra
“terra”, quando esta significar “terra firme” e/ou não estiver especificada.
“Após longa viagem pelos oceanos, retornamos a terra.”
Obs.: Quando “terra” significar o planeta “Terra”, ocorre
crase.
Obs. 2: Quando a terra estiver especificada, ocorre crase.
Ex.: “Voltei à terra de origem de meus bisavós. ”
9. Antes da palavra
casa, quando não estiver especificada.
“Foi a casa.” “Voltou a casa. ”
Obs.: Quando a casa estiver especificada, aceita-se a crase.
“Fui à casa de meus avós. ”
10. Antes de nomes de
cidades, estados países.
A maioria dos nomes de lugar repele o artigo; portanto
diante deles não pode ocorrer a crase. Alguns nomes de lugar, no entanto,
admitem o artigo feminino. Diante deles, evidentemente, poderá ocorrer crase.
Para sabermos se um nome de lugar aceita ou não o artigo, há um artifício
bastante difundido:
Utiliza-se um verbo que peça a preposição “de” ou “em” (vir,
chegar ou estar, por exemplo). Se, ao utilizarmos um desses verbos, aparecerem
as contrações “da” ou “na”, fica evidente que o nome de lugar aceita o artigo
e, portanto, ocorrerá a crase, desde que o antecedente peça a preposição a.
Observe os exemplos abaixo:
“Fui à Bahia.” (estou na Bahia, cheguei da Bahia)
“Dirijo-me à Itália.” (estou na Itália, cheguei da Itália)
“Fui a Salvador.” (estou em Salvador, cheguei de Salvador)
“Dirijo-me a Roma.” (estou em Roma, cheguei de Roma)
Basicamente “Vou a, volto da, crase no a! Vou a, volto de,
crase para quê?” a velha rima que nos ajuda a memorizar mais facilmente a
regra.
Os casos acima são os principais casos em que as pessoas cometem o erro crasso de colocar crase. Aliás, os incidentes de crase onde não existe são mais frequentes do que os esquecimento desta em sua ocorrência. Vamos memorizar, nos ajudar e fazer da internet um lugar gramaticalmente melhor!
Em breve: onde,
afinal, ocorre a crase e alguns casos facultativos.
Resumo criado com a colaboração das gramáticas de: Celso
Cunha e Lindley Cintra, Ernani & Nicola, William Roberto Cereja e Thereza
Cochar Magalhães, Hildebrando A. de André e, claro, Pasquale Cipro Neto.

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