sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Crase - Parte II - Em que situações ocorre a crase, afinal?

Anteriormente, foram listados os casos em que não ocorre crase. Mas, então, onde é que ocorre a crase?

1. SEMPRE ocorre crase:

a. Na indicação de número de horas, desde que, trocando-se o número de horas por meio-dia, obtenhamos a expressão ao meio-dia

Exemplos:

Chegou às sete horas. (Chegou ao meio-dia)
Saiu à uma hora em ponto. (Saiu ao meio-dia em ponto)

Mas em:

“Estou aqui desde as cinco horas.” não ocorre crase, porque teríamos “Estou aqui desde o meio-dia”. “Desde”, assim como “a” é preposição, não necessitando da contração preposição a + artigo a (crase), pois já temos preposição “desde” + artigo “a”.

Outro exemplo:

“Vou esperar apenas até as cinco horas.” (Vou esperar apenas até o meio dia)

Meio complexo? É preciso de prática. O truque de substituir as horas por “meio-dia” facilita muito a compreensão.

Vamos ao próximo caso?

b. Diante da palavra moda da expressão adverbial à moda de, mesmo que a palavra moda fique subentendida

Exemplos:

“Tinha um estilo à Machado de Assis.”
“Foi uma jogada à Pelé.”
“Quero uma pizza à moda da casa.”

c. Nas locuções adverbiais e conjuntivas formadas com palavras femininas (à tarde, à noite, às escuras, à vontade, à vista, às pressas, à medida que, à proporção que etc.)

Exemplos:

“Saiu à tarde, voltou à noite.”
“Caminhava às pressas pela rua.”
“À medida que caminhava, ficava mais cansado.”

Observações: Nas expressões adverbiais femininas, muitas vezes, ocorre o acento grave (`) sem que haja a crase, isto é, a fusão de dois “as”. Verifique:

“Comprei o carro à vista.”

Se trocarmos por um masculino correspondente, teríamos:

“Comprei o carro a prazo.”

Evidência clara de que na expressão “à vista” não ouve a fusão de dois “as”. Nesses casos, o uso do acento grave se justifica por uma questão de tradição da língua, ou para tornar o contexto mais claro, evitando-se ambiguidades.

Observe os exemplos a seguir:
“Chegou a noite.” (a noite = sujeito)
“Chegou à noite.” (sujeito implícito na desinência = ele(a))


2. Casos facultativos

Diante de certas palavras, o uso do artigo definido é facultativo; portanto, o uso do acento indicador da crase também será facultativo. Destaquemos dois casos:

a. Pronomes possessivos femininos:

“Fiz alusão a (ou à) minha amiga.”

b. Nomes femininos:

“Falei a (ou à) Lúcia que não iria.”

Observe que com essas palavras o artigo pode aparecer ou não.

Minha amiga saiu.  >     A minha amiga saiu.
Lúcia chegou.         >     A Lúcia chegou.


3. Crase com os Pronomes Demonstrativos: aquele(s), aquela(s) e aquilo

Haverá crase com os pronomes demonstrativos aquele(s), aquela(s) e aquilo sempre que o termo antecedente exigir a preposição a.

“Iremos a aquele jogo.” > “Iremos àquele jogo.”
“Chegamos a aquela cidade.” > “Chegamos àquela cidade.”
“Fiz referência a aquilo.” > “Fiz referência àquilo.”

É claro que, se o termo antecedente não exigir a preposição a, não haverá a crase.

“Espero aquela oportunidade.”
“Conheço aquele aluno.”
“Comprei aquilo que você recomendou.”

4. Crase diante dos pronomes relativos a qual e as quais

Haverá a crase com os pronomes relativos a qual e as quais sempre que o verbo da oração que eles introduzem exigir a preposição a.

“A cidade à qual iremos possui praias às quais chegaremos.”

É fácil constatar que houve a crase, utilizando-se o artifício de trocar os termos femininos por masculinos correlatos. Observe:

“O lugar ao qual iremos possui recantos aos quais chegaremos.”

5. Crase com o pronome demonstrativo a(s)

Poderá ocorrera a crase da preposição a com o pronome demonstrativo a(s) que antecede o pronome relativo que.
Lembre-se de que a e as são pronomes demonstrativos quando equivalem a aquela(s).

“Esta roupa é semelhante à que comprei.”
“Suas opiniões são análogas às que eu dei.”

Você poderá constatar a ocorrência da crase utilizando-se do artifício mencionado de trocar os termos femininos por masculinos correlatos. Observe:

“Esse sapato é semelhante ao que comprei.”
“Seus pareceres são análogos aos que eu dei.”

Tranquilo até aqui?

Pois bem. Crase não é um bicho de sete cabeças. Vimos os casos em que a crase é terminantemente proibida e os casos em que a crase ocorre. Porém, fica claro que a regência do verbo é que dita, muitas vezes, se haverá ou não crase. Portanto, nossa próxima aula será sobre regência.

Regência é a parte da Gramática Normativa que estuda as relações entre os termos da oração, verificando se um termo serve de complemento a outro. O termo que exige o complemento é chamado de regente, enquanto o complemento é chamado de regido. Quando o termo regente é um verbo, dizemos tratar-se de regência verbal. Se o termo for um nome (substantivo, adjetivo ou advérbio), dizemos tratar-se de regência nominal.”

Ernani & Nicola

No caso da ocorrência de crase, precisamos saber se o verbo é transitivo direto (não exige preposição) ou se é transitivo indireto (exige preposição). E, em se tratando da crase, a preposição a.

Os casos principais e suas exceções serão listados no próximo post. Até lá!



Bibliografia de apoio: Ernani & Nicola, Celso Cunha & Lindley Cintra e Pasquale Cipro Neto. 

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